O desamparo e a exigência de desempenho
29 de outubro de 2026
Há uma frase que se repete nos consultórios com uma regularidade quase rotineira: “Eu deveria estar dando conta.” Ela aparece no executivo que não dorme, na mãe que se sente insuficiente, no estudante que trava diante da prova, no jovem que acumula cursos e certificados e, ainda assim, sente que está sempre atrasado. O conteúdo muda; a estrutura é a mesma. Alguém se cobra uma completude que nunca chega. A psicanálise tem algo a dizer sobre essa cobrança e o que ela diz começa muito antes da vida adulta. O ponto de partida: nascemos desamparados Freud observou que o bebê humano chega ao mundo num estado de prematuração radical. Diferente de outros animais, não consegue sobreviver por conta própria por um longo tempo. Fome, frio e dor não podem ser resolvidos por ele: dependem de que um outro perceba, interprete e responda. A esse estado Freud deu o nome de (Hilflosigkeit) desamparo. O ponto decisivo é que o desamparo não é só uma fase biológica que se supera com o crescimento. Ele deixa uma marca psíquica. Nossa primeira experiência de ser alguém é a de depender. O choro do bebê só vira pedido porque alguém o escuta como pedido. Somos, desde o início, seres constituídos na relação com o outro. Em Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud vai além: a angústia adulta seria, em parte, um eco dessa situação original. Quando nos angustiamos, algo em nós reencena o medo de ficar sem resposta, sem amparo, à mercê de uma intensidade que não conseguimos nomear nem conter. O sonho de não precisar de ninguém Se o desamparo é constitutivo, a cultura sempre inventou formas de lidar com ele. Em O futuro de uma ilusão (1927), Freud sugere que a religião oferecia um pai protetor em escala cósmica uma resposta ao desamparo diante da natureza, do destino e da morte. Hoje, muitas dessas garantias perderam força. Mas o desamparo não desapareceu; mudou de roupa. Uma das respostas mais difundidas do nosso tempo é a fantasia da autossuficiência: se eu for produtivo o bastante, organizado o bastante, resiliente o bastante, nunca mais vou precisar de ninguém. O ideal não é mais ser amparado, e sim nunca precisar ser. O filósofo Byung-Chul Han descreve essa sociedade como a do desempenho, em que o sujeito se torna empresário de si mesmo e se explora acreditando estar se realizando. A psicanálise acrescenta uma camada: essa exploração não é só imposta de fora. Ela encontra um aliado interno. O "supereu" que nunca está satisfeito Freud chamou de "supereu" a instância psíquica que observa, julga e cobra. Uma de suas descobertas mais desconcertantes, em O mal-estar na civilização (1930), é que o "supereu" não se acalma quando obedecemos a ele. Ao contrário: quanto mais renunciamos e nos esforçamos para satisfazê-lo, mais severo ele se torna. É por isso que a meta alcançada raramente traz o alívio prometido. A promoção vem, e logo surge a próxima exigência. O corpo muda, e o espelho encontra outro defeito. Lacan mostrou que o "supereu" contemporâneo não diz apenas “não faça”; ele ordena “goze”, aproveite, realize, maximize. Um imperativo impossível de cumprir, e justamente por isso inesgotável. O resultado é um circuito cruel. Para não sentir o desamparo, o sujeito se lança à performance. A performance alimenta o "supereu". O "supereu" exige mais. E, quando o corpo ou a mente cedem na crise de ansiedade, no esgotamento, na paralisia, o desamparo retorna, agora vivido como fracasso pessoal. Quando o sintoma fala Nessa perspectiva, a ansiedade e o burnout não são apenas defeitos a corrigir para voltar a render. São também mensagens. O sintoma, para a psicanálise, é uma forma de dizer aquilo que não encontrou outro caminho para ser dito. O que o esgotamento diz, muitas vezes, é simples e difícil de admitir: eu não dou conta sozinho. Essa frase, que o ideal de autossuficiência transforma em vergonha, é na verdade uma verdade estrutural. Ninguém dá conta sozinho. Nunca demos. Por isso, tratar o sofrimento apenas como um problema de gestão mais técnicas de produtividade, mais rotinas de autocuidado convertidas em novas metas pode reforçar o próprio circuito que adoece. Meditação vira tarefa. Descanso vira desempenho. O imperativo só troca de objeto. Do desamparo à palavra O que a psicanálise propõe não é eliminar o desamparo, o que seria impossível, mas mudar a relação com ele. O bebê desamparado só sobreviveu porque houve alguém que traduziu seu grito em pedido. Na vida adulta, algo parecido pode acontecer quando a angústia encontra uma escuta. Na análise, o sujeito tem a chance de falar daquilo que o excesso de fazer tentava calar. Ao falar, descobre que a cobrança que sentia como sua tem uma história: vozes, expectativas, cenas, laços. E descobre também que o lugar da falta não é só o lugar da dor. É o lugar do desejo. Desejamos porque algo nos falta; quem estivesse completo não desejaria nada. Reconhecer o próprio desamparo, nesse sentido, não é render-se à fragilidade. É abrir mão de uma onipotência que nunca nos pertenceu e, com isso, abrir espaço para vínculos reais aqueles em que é possível pedir, depender, ser ajudado sem se sentir diminuído. Para terminar Talvez a pergunta não seja “como faço para dar conta de tudo?”, e sim “por que preciso tanto dar conta sozinho?”. A primeira pergunta nos devolve à esteira. A segunda nos convida a escutar. O desamparo nos acompanha desde o primeiro dia. Não é um defeito de fábrica a ser corrigido, mas a marca de que somos feitos de relação. Quando deixamos de lutar contra ele, algo se acalma não porque o problema foi resolvido, mas porque, enfim, deixamos de carregar sozinhos aquilo que nunca foi feito para ser carregado assim.
Referências • FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926). • FREUD, S. O futuro de uma ilusão (1927). • FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). • HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. • LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-73).
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